Confesso uma coisa.
Da primeira vez que ouvi a palavra «streak» tive de perguntar o que era.
É inglesa, quer dizer «sequência»: os dias seguidos em que abres uma app sem falhar nenhum.
E já aí, para mim, havia um problema — porque haveria eu de aprender a gíria de um videojogo para gerir o meu dinheiro?
Recuemos um passo, e comecemos precisamente por um videojogo.
Há um jogo, no telefone, em que tens de alinhar doces da mesma cor.
Cada jogada certa faz luzes, sons, uma pequena explosão de cor. Sobes de nível. Chega-te uma notificação a dizer que há algum tempo que não voltas, e que as tuas vidas estão a recarregar.
Aquele jogo foi desenhado por pessoas muito boas a fazer uma coisa só: fazer-te voltar.
Não fazer-te ganhar. Fazer-te voltar.
E nos últimos anos essa mesma escola — chamemos-lhe a escola dos doces — entrou nas apps do teu dinheiro.
As apps mais divulgadas hoje fazem-no sem vergonha.
Abres a conta e recebe-te uma sequência — a streak de que falava: os dias seguidos em que abriste a app ou em que ficaste dentro do orçamento, com a promessa implícita de não a quebrares.
Desbloqueias badges, as medalhinhas virtuais para colecionar.
Ganhas moedas falsas. Sobes de nível, como se gerir as contas de casa fosse uma partida.
Têm até um nome para tudo isto: chamam-lhe gamificação — pegar nas mecânicas dos videojogos (pontos, níveis, prémios, sequências para não interromper) e colá-las a uma coisa que jogo não é.
É a palavra em torno da qual gira todo este artigo.
Parece motivador. Às vezes, durante umas semanas, é mesmo.
Nós escolhemos não o fazer. De todo.
Não é um descuido, não é uma funcionalidade que chegará mais tarde. É uma decisão de produto, tomada de propósito.
E neste artigo quero explicar-te porquê — com a mesma calma com que tentamos fazer tudo o resto.
O que a gamificação faz de verdade
Comecemos pelo mecanismo, porque percebê-lo muda tudo.
A sequência, o badge, a notificação festiva não servem para medir o teu dinheiro.
Servem para criar o hábito de abrir a app.
São duas coisas diferentes, e a app que as confunde tem um interesse que não coincide com o teu.
Tu precisas de saber como estás. A app precisa que voltes — porque o tempo que passas lá dentro é o produto dela.
Vejamos um exemplo concreto.
O Marco usa uma app que lhe dá uma sequência de trinta dias de "orçamento cumprido". Tem orgulho nesse número.
Uma noite está em viagem, está cansado, e para não quebrar a sequência regista uma despesa à toa, à pressa, só para pôr o visto.
Aquele gesto não tornou o Marco mais rico nem um euro.
Protegeu um número que só existe dentro da app. O Marco não está a gerir o seu património: está a tomar conta de uma pontuação.
E é aqui que está o problema verdadeiro. A gamificação desloca a tua atenção do dado que conta — quanto vale o que tens menos o que deves — para a pontuação que a app inventou.
O primeiro é teu. A segunda é dela.
O problema da motivação de curto prazo
Há uma objeção legítima, e quero levá-la a sério.
"Vittorio, mas se a sequência me faz registar as despesas todos os dias, não é uma coisa boa? Mais vale gamificado e feito do que sério e abandonado."
É uma pergunta honesta. A resposta exige distinguir dois tipos de impulso.
Há a motivação que vem de fora: o prémio, o ponto, a luzinha.
Funciona depressa e desvanece-se depressa.
No dia em que falhas a sequência — e mais cedo ou mais tarde falhas — o castelo desmorona-se. Perdeste a sequência, portanto mais vale deixar andar.
Recomeçar do zero custa esforço, e a app que te tinha agarrado com o entusiasmo passa agora a manter-te refém com o sentimento de culpa.
E há a motivação que vem de dentro: percebo porque o faço, vejo que me serve, portanto continuo.
É mais lenta a acender. Mas quando acende, aguenta-se.
As finanças pessoais são uma maratona de décadas, não um sprint de trinta dias.
Um impulso que se consome depressa é exatamente o instrumento errado para uma coisa que tem de durar quarenta anos.
Há depois um custo mais subtil, de que pouco se fala.
Quando transformas uma coisa séria num jogo, tiras-lhe peso.
As decisões sobre o teu dinheiro — quanto pôr de parte, se comprar casa, como estás verdadeiramente — são decisões adultas.
Merecem calma e atenção, não luzinhas e fanfarras.
Festejar com confetes digitais cada despesa registada não te torna mais sereno.
Com o tempo torna-te apenas mais habituado ao ruído.
E um dia o ruído cansa, fechas a app, e voltas exatamente ao ponto de antes: sem uma coordenada.
O nevoeiro debaixo dos confetes
Há uma coisa que a gamificação nunca te dirá, e é a mais importante.
Podes ter uma sequência de duzentos dias e não saber quanto vale o teu património.
Podes ter colecionado todos os badges e não saber, se amanhã o rendimento parasse, durante quantos meses conseguirias aguentar.
A pontuação cresce. O nevoeiro fica.
Pior ainda: a pontuação convence-te de que estás a ir bem, enquanto a pergunta que conta — como estou verdadeiramente? — nunca ninguém ta pôs.
É a diferença entre uma app que te entretém e uma app que te orienta.
A que te orienta é às vezes menos divertida. Não te oferece a dopamina da luzinha.
Oferece-te uma coisa mais incómoda e mais preciosa: a verdade sobre onde estás.
O que pomos no lugar
Nesta altura é justo que me perguntes: e então, o que é que vocês oferecem, se tiram tudo isto?
Oferecemos pouco. E silencioso.
No centro do Cashfulness há um só valor: o teu ponto de situação.
É um termo que trago da vela — a posição exata do barco na carta num dado instante — e uso-o para o teu património líquido: tudo o que possuis menos tudo o que deves.
Não o saldo da conta, não o salário. A tua posição absoluta, hoje.
Aquele valor não te faz festas. Está ali, atualizado, e espera que olhes para ele.
O ritual que propomos é minúsculo: uma vez por semana, dez minutos, olhas para a coordenada e vês como se mexeu em relação a sete dias antes.
Quase sempre não tens de fazer nada. A rota aguenta-se, e dás por isso sem ansiedade.
Nenhuma sequência para defender.
Se falhares uma semana, não perdes nada: o número está sempre ali, à tua espera quando voltares. Não há castelo nenhum a desmoronar-se.
As notificações seguem a mesma lógica. Mandamos de dois tipos, e nenhum deles é um empurrão para "voltar a jogar".
Há os avisos informativos gerais — comunicações de serviço.
E há os avisos pessoais, ligados a um estado real: "faltam cinco dias para o fecho do orçamento, e estás dentro do previsto."
Informação útil, no momento certo, sempre com uma hipótese de solução quando é preciso.
Nunca um "volta, temos saudades tuas". Nunca um "gastaste demasiado!" aos gritos e a vermelho.
O princípio é simples e levamo-lo a sério: a app nunca te escreve porque somos nós que precisamos que a abras.
Escreve-te apenas quando é a ti que serve.
E os momentos de reconhecimento? Existem, mas são raros e ligámo-los a coisas que aconteceram mesmo.
Quando completas pela primeira vez o levantamento do teu património — o momento em que vês a tua coordenada real, muitas vezes pela primeira vez na vida. Quando atinges um orçamento que tinhas definido.
Aí sim, há um reconhecimento. Não por teres aberto a app pelo trigésimo dia seguido, mas por teres concluído algo que conta mesmo.
A diferença está toda aqui.
A gamificação premeia-te pelo comportamento (voltaste). Nós reconhecemos o resultado (percebeste onde estás, atingiste uma meta que definiste tu).
O que NÃO vais encontrar, e porque fazemos questão de to dizer
Quero ser explícito sobre o que deixámos de fora, porque numa app o silêncio é uma escolha tanto quanto o ruído.
Não vais encontrar sequências de dias (as «streaks»): nenhum número que se anule se falhares um.
Não vais encontrar badges, pontos, níveis, moedas virtuais, tabelas de classificação. Nada para colecionar, nada com que competir — nem sequer contigo próprio de ontem.
Não vais encontrar notificações festivas ou de chamariz fora do ritual que serve a ti. A app não implora atenção.
Não vais encontrar aquela linha, hoje tão comum, que te diz "gastaste mais do que a média nacional" ou "as pessoas da tua idade poupam mais".
Não comparamos a tua vida com a de estranhos.
Antes de mais porque nem sabemos quem és — registas-te com um pseudónimo, sem dares o teu nome verdadeiro.
E depois porque a média de outras pessoas não é uma bússola: é apenas mais uma maneira de te fazer sentir inadequado.
A tua única unidade de medida és tu em relação a ti próprio.
E não vais encontrar, por baixo, nenhum mecanismo que trabalhe contra ti.
O Cashfulness não te vende produtos financeiros, não recebe comissões sobre o que fazes com o teu dinheiro, não te empurra para um fundo.
Não tem nenhum interesse escondido no número que vês.
É um instrumento neutro. Dá-te a coordenada, e sai da frente.
Parado, mas sereno
Há uma razão de fundo por trás de tudo isto, e digo-a com clareza porque é o coração da questão.
O teu dinheiro não é um jogo.
É o instrumento com que compras tempo, liberdade, possibilidade de escolha.
É demasiado importante para ser transformado num passatempo que, lá no fundo, serve para te manter agarrado ao telefone.
As apps dos doces querem o teu tempo. Nós queremos devolver-to: dez minutos por semana, e no resto a vida.
Sei que uma app sem fogo de artifício, ao início, pode parecer menos entusiasmante.
Não te vai dar o abanão curto da luzinha.
Vai dar-te uma coisa mais rara: a sensação, construída uma semana de cada vez, de saber onde estás.
E essa, ao contrário de uma sequência, nunca se quebra.
The calm side of money. Também aqui, sobretudo aqui.
— Vittorio